528480 minutos

Imagem do Google Maps

Por Lucas Lippi

25 de janeiro de 2019. A cidade de Brumadinho é vítima de um dos maiores crimes ambientais do Brasil: o rompimento de uma barragem da Vale, mineradora multinacional brasileira. Contam-se, hoje, 259 humanos mortos e 11 humanos ainda desaparecidos. Não houve cálculo para outras espécies afetadas, até onde me informei, ainda que imagens [1] e algumas reportagens [2] tenham tematizado o sofrimento de não-humanos. Nosso conhecimento nos distancia da preocupação com outras formas de vida. Um ano e 2 dias se passaram, 8808 horas, 528480 minutos, mas as pessoas que moram lá ainda sentem que estão presas no mesmo dia do evento catastrófico e criminoso, produzido, dirigido e encenado pela Vale. A figuração e o cenário morreram. Dos relatos de uma reportagem da BBC Brasil [3], um me impactou fortemente: “você acorda e todo dia é 25 de janeiro”. Um dia, 528480 minutos.

25 de janeiro de 2019. A cidade de Brumadinho é vítima de um dos maiores crimes ambientais do Brasil: o rompimento de uma barragem da Vale, mineradora multinacional brasileira. […] “Você acorda e todo dia é 25 de janeiro”.

Imerso na dinâmica da vida de São Paulo, imediatista, que vende tempo precioso, que cobra caro por momentos inesquecíveis sobrepostos a outros igualmente inesquecíveis, eu não sei o que é viver a tragédia. A aceleração do tempo incentiva que comemoremos. Festas, fogos, músicas, bebidas, luzes, roupas e fotos. Muitas fotos. Tiradas com nossos celulares, que levam minério. Se são os mesmos que poluem as águas do Rio Paraopeba, eu não sei, mas a lógica extrativista é a mesma. Um estudo da Fundação SOS Mata Atlântica aponta que o Rio Paraopeba está contaminado por metais pesados, tornando tóxica a água a muitas formas de vida, humana e não-humanas. Um rio morto. 356 dos 510km de extensão. Quanto tempo levaríamos para percorrer o trajeto? Certamente não seriam 528480 minutos. A lama mortal foi mais rápida.

Nos últimos dias de 2019, deparei-me com publicações de pessoas em um festival de música em Inhotim,  Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico. Localizado a 17 km da barreira rompida, o local revela-se um museu a céu aberto, que abriga diversas obras de arte. Inhotim foi construído em cima de uma fazenda produtora de carvão vegetal, usado pela Itaminas, de Bernardo Paz, criador do instituto. A empresa de minérios protagonizou, em 1986, um rompimento de barragem que matou sete pessoas. Quantos não-humanos morreram? A mesma indústria mineradora. Outra roupagem, outro nome. Assim como a Samarco, em Mariana [4]. Além do crime ambiental e da grilagem de terra ­­– provavelmente mobilizada para exploração mineral –, Bernardo Paz acumula em sua ficha condenações por trabalho escravo e infantil [5].

Uma pergunta não saía da minha cabeça: como poderia um lugar em que se acumula dores e sofrimentos – históricos e recentes – ser palco de diversão? As fotos reforça(va)m meu incômodo. A felicidade estampada em filtros “descolados”. Fotos e lama: a mesma matéria-prima. O Instituto Inhotim vela a história de sua construção, procurando se distanciar das histórias que o envolvem.

Uma pergunta não saía da minha cabeça: como poderia um lugar em que se acumula dores e sofrimentos – históricos e recentes – ser palco de diversão? As fotos reforça(va)m meu incômodo. A felicidade estampada em filtros “descolados”. Fotos e lama: a mesma matéria-prima. O Instituto Inhotim vela a história de sua construção, procurando se distanciar das histórias que o envolvem. As obras de arte e o projeto arquitetônico do local são propagandeados para soterrar o passado, soterrando junto informações sobre o Instituto. Assim, torna-se possível que festivais de música ocupem o “museu” sem que sejam associados à exploração física, emocional e ambiental de humanos e não-humanos, sem que  qualquer retorno seja direcionado às vítimas da mineração. A outra parte da resposta encontro no individualismo e no imediatismo, ensinados e reforçados cotidianamente, de modo que somos induzidos a aceitá-los como verdades. Quem se fotografa em locais de sofrimento, como memoriais e museus que materializam memórias coletivas de violência, coloca-se à frente do cenário, dando mais importância a si, em detrimento do que lá se passou. 

A compra de obras de arte e o financiamento de produção artística são instrumentos históricos de dominação social, por meio da lavagem de dinheiro e da desvalorização de expressões artísticas que não geram retorno, seja de dinheiro ou de prestígio social para aqueles que as financiam. Assim, o que se aplaude, abertamente ou não, nos diversos festivais sediados em Inhotim, é a reprodução da lógica colonial de domínio dos homens sobre as artes e as naturezas, que são equivalentes, em nossa sociedade, ao controle dos homens sobre as mulheres. Naturezas-artes-mulheres. O tempo, ainda que substantivo masculino, soma-se à tríade, sendo objeto de controle de nossa cultura. Não à toa “tempo é dinheiro”, e é vendido com o discurso da escassez e da velocidade sob a forma de produtos e serviços.

Em sua página, a organização elenca dez motivos pelos quais deveríamos ter ido ao show que teve, entre outros objetivos, “renovar emocionalmente” a cidade. A compensação vem em cápsula emocional, mas agride a memória das ruínas produzidas pelo capitalismo sedento e onipresente, que monetiza inclusive o sofrimento.

O festival ao qual me refiro, MECA, organizou shows no centro da cidade de Brumadinho, no dia anterior ao início da festa de Inhotim. Cobraram uma “entrada simbólica” no valor de cinco reais dos moradores do município. Em sua página [6], a organização elenca dez motivos pelos quais deveríamos ter ido ao show que teve, entre outros objetivos, “renovar emocionalmente” a cidade. A compensação vem em cápsula emocional, mas agride a memória das ruínas produzidas pelo capitalismo sedento e onipresente, que monetiza inclusive o sofrimento. Expulsa-se famílias de suas moradias por meio da grilagem de terra, explora-se “a natureza” em busca de recursos vários, juntamente com as pessoas espoliadas que se tornam vítimas dos crimes ambientais. Posteriormente, a dor também vira produto. 528480 minutos, numa cultura que faz do tempo dinheiro, deve valer muito. O paradoxo se materializa em fotos – produto irmão da lama – de celebração de momentos preciosos. 528480 minutos ressuscitados cotidianamente na dor de Brumadinho. A crença de que os minutos de alegria devem se sobrepor à dor e ao sofrimento é mais forte. A mim, parecem não ser sentimento intercambiáveis.  

Eu imaginava escrever sobre o tempo por outras vias, refletindo sobre os meses que levamos para gravar e publicar os primeiros episódios do Selvagerias, mas as lembranças de Brumadinho se impuseram a mim desde dezembro de 2019. Esse movimento de mudar de um mote reflexivo a outro é bastante próprio das investigações científicas, e se mostra bastante presente na abertura antropológica ao inesperado, às contingências das relações que abrem e fecham possibilidades condutoras. Fazer antropologia em tempos de catástrofes, ou como diria Anna Tsing, antropóloga estadunidense, encontrar vida e aprender a viver nas ruínas em/entre relações humanas e não-humanas está para além da própria antropologia. Parece necessário aprendermos a lidar com a dor e o sofrimento dos outros num momento em que as pessoas têm se distanciado e se isolado, de modo que se impõe dor e sofrimento aos outros como forma de reforçar o individualismo. Se Inhotim esconde por trás do museu de arte a violência histórica, o tempo das redes sociais traduz em sua “arte”, nos sorrisos das selfies e nos filtros das imagens, novos métodos de silenciamento daqueles que tiveram e têm suas bocas tapadas.

Segundo o Google Maps, são necessários 35 minutos para ir, de carro, de Inhotim ao Córrego do Feijão. Tempo médio de um de nossos episódios. Para que entendêssemos o sentido de “todo dia é 25 de janeiro”, seriam precisos 15099 episódios. 528480 minutos que acumulam mais minutos. A temporalidade da dor é o excesso de tempo, não a escassez que nos vendem. Nosso desafio é, portanto, refletir e descrever sobre os desastres e, ainda, apostar na capacidade de criação dos coletivos impactados, pois, sem eles, nada disso existiria. Nem corpo, nem ideia, nem celular, nem foto, só lama.

NOTAS:

[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/28/album/1548699604_617278.html#foto_gal_12

[2] https://midianinja.org/news/milhares-de-animais-morrem-soterrados-em-brumadinho/

[3] https://www.bbc.com/portuguese/geral-51228582

[4] Sobre relação dos indígenas com o crime da Samarco:

https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/nao-foi-um-acidente-diz-ailton-krenak-sobre-a-tragedia-de-mariana

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2019/02/02/interna_gerais,1026941/os-povos-indigenas-e-a-lama-da-samarco-e-da-vale-dois-retratos.shtml

[5]  A quem se interessa pelos detalhes dessa relação de Inhotim com a indústria mineradora, sugiro a matéria do Intercept e um artigo de João Carlos Borges, disponíveis nos links:

https://theintercept.com/2018/06/08/crimes-bernardo-paz-do-inhotim/

http://www.ufpb.br/evento/index.php/enancib2015/enancib2015/paper/viewFile/2734/1202

[6] https://mecabrumadinho.com/

Escrito por Lucas Lippi.
Edição e revisão de Beatriz Braga, Diógenes Cariaga e Tainá Scartezini..
Imagem do Google Maps.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.