Adivinhe quem é branco: um debate sobre racialidade no Youtube

A Redenção de Cam, de Modesto Brocos (1895).

Por Tainá Scartezini

Um grupo de desconhecidos se alinha num meio círculo. No centro deles, é colocada uma pessoa, ela terá de decidir algo sobre os que estão a sua volta. Este é o formato de uma série de vídeos do canal no Youtube CUT chamada LineUp (Alinhar). Num desses vídeos, sobre o qual discutirei aqui, o “People Guess Who’s White In a Group of Strangers” (Pessoas adivinham quem é branco num grupo de estranhos) [1], pede-se a pessoa do centro que adivinhe quem do semicírculo se identifica como branco(a). Em resumo, a proposta da dinâmica, que parodia um sistema de classificação racial às avessas, é discutir o conceito de branquitude a partir de diferentes noções de raça e etnia expressas pelos participantes, os quais, por sua vez, têm diferentes origens sociais.

[…] a proposta da dinâmica, que parodia um sistema de classificação racial às avessas, é discutir o conceito de branquitude a partir de diferentes noções de raça e etnia expressas pelos participantes, os quais, por sua vez, têm diferentes origens sociais.

Em termos de edição, o vídeo é elaborado de tal modo que sua sequência mantêm a mesma pessoa do semicírculo enquanto alterna as quatro pessoas encarregadas de responder se o outro é ou não branco. Tal formato cria uma interessante justaposição de discursos que ora se assemelham, ora não, em suas concepções a respeito de raça. 

É pertinente ressaltar que as pessoas do centro se apresentam no início do vídeo como: 1) Rebecca, especialista em saúde mental pediátrica, de origem judaica russa; 2) Colton, que trabalha com restaurantes, branco; 3) Bryant, músico e designer de roupas, negro; e 4) Rayne, que se identifica como “bruxa, feminista, ativista, vadia, mulher gorda, queer, poli[amorosa],  negra, etc” [2]. Nota-se que tanto “adivinhadores” como “adivinhados” provêm de grupos distintos. Embora todos pertençam a uma mesma sociedade – o que quer que seja a “sociedade americana” – cada um carrega múltiplos marcadores sociais (origem étnico-racial, classe, gênero, etc), que se interseccionam na produção daquele sujeito. E como são vários sujeitos, cada qual com diferentes intersecções entre os marcadores, as concepções e parâmetros que operacionam para definir o que seria uma pessoa branca variam.

Assim, ao longo do vídeo, são levantados múltiplos critérios para definir a branquitude de alguém. Alguns fazem referência ao fenótipo (cor da pele, traços faciais ou corporais e formato do cabelo), outros a traços culturais (sotaque, vestimenta, gestualidade, etc) e outros ainda à nacionalidade, ancestralidade e definições oficiais do Estado (o censo demográfico norte-americano, as leis e formulários). Isto demonstra, justamente, que há muitos e distintos modos de se definir a origem de alguém.

Ficamos então com a pergunta: o que é, afinal, uma pessoa branca?

Ficamos então com a pergunta: o que é, afinal, uma pessoa branca? Da forma como antropólogos e outros cientistas compreendem o assunto hoje, não existe uma resposta certa, ou se quer uma branquitude “verdadeira”. O que existe são abundantes arranjos entre esses critérios mencionados acima. Mais do que isso, os arranjos que os “adivinhadores”  têm sobre alguém nem sempre coincidem com os arranjos que de fato compõem os “adivinhados”, como é o caso do rapaz percebido como judeu ou não-branco, mas que diz ser igual ao seu pai siciliano (portanto, italiano e branco, na visão dele sobre si), apesar de ter, em menor parte, ancestralidade judaica [3], ou dos dois caras “bi-raciais” [4], um percebido como branco, outro como POC (People of color, em português: “pessoa de cor”) [5].

Apesar de falar sobre um contexto americano, com suas particularidades a respeito o que se entende por raça, diferentes do contexto brasileiro, penso que o vídeo levanta um importante debate em torno não só do conceito de branquitude, mas também do que consideramos como critérios relevantes para definir a origem étnica e racial de qualquer pessoa. 

Como diria o antropólogo do canal, Christopher Chan, “não há nada de errado em se identificar como branco, ou marcar a caixa [do censo ou de formulários] em reconhecimento de que você tem privilégio branco, ou que você tem ancestralidade europeia, ou o que quer que branquitude signifique para você. O problema é quando pensamos que de alguma forma a branquitude é natural ou herdada, ou que há algo natural chamado branquitude, porque, francamente, não há. Basta olhar, por exemplo, a história dos Estados Unidos e sua política de imigração para ver que alemães, italianos, judeus, armênios, sírios, pessoas descendentes de libaneses, pessoas com só um avô negro, pessoas com um avô indígena, todos podem ser considerados brancos ou não brancos em diferentes momentos no tempo. A categoria de raça está sempre mudando, de modo que as pessoas convidadas a ter privilégio branco estão sempre sob constante transformação” [6].

Em outras palavras, eu diria que cada período histórico (tempo), lugar, seja país ou região (espaço), e cada cultura (contexto) elaboram arranjos particulares entre critérios fenotípicos, culturais, sociais, de ancestralidade e oficiais para conceber a racialidade dos sujeitos que formam uma dada sociedade.

Em outras palavras, eu diria que cada período histórico (tempo), lugar, seja país ou região (espaço), e cada cultura (contexto) elaboram arranjos particulares entre critérios fenotípicos, culturais, sociais, de ancestralidade e oficiais para conceber a racialidade dos sujeitos que formam uma dada sociedade. Além disso, como já foi dito, “ser” alguma coisa tem dois lados: um, o que o sujeito é ou como se percebe; e outro, como é percebido pelos demais.

No Brasil, por exemplo, italianos sempre foram considerados “brancos”, ao passo que nos Estados Unidos, cuja colonização foi predominantemente anglo-saxônica protestante, italianos, que eram latinos e católicos, nem sempre foram percebidos como “brancos”. Branquitude, em certa época lá, era sinônimo de ser descendente de ingleses ou alemães protestantes. Outros europeus, dentre os quais italianos e judeus europeus, não eram “brancos”. Além disso, a própria definição do que é a Europa mudou ao longo do tempo, de modo que ter ancestralidade europeia pode significar coisas distintas para diferentes pessoas e tempos históricos.

Ou seja, o conceito de “raça”, embora tenha surgido em um certo momento da história, já apareceu como algo que falava sobre uma “verdade intrínseca”, o que no século XIX desembocou nas teorias racialistas eugênicas (…).

Quero atentar ainda, dentro da discussão proposta pelo vídeo, para o fato de que a própria noção de branquitude é um produto da história colonial. As categorias “branco”, “negro” e “índio” não eram usadas antes da chegada dos europeus às américas. De um lado, a Europa era e é composta por vários povos e Estados nacionais. De outro, “negro” e “índio” foram termos inventados pelos colonizadores. Pessoas que assim foram chamadas faziam e fazem parte de diferentes povos e etnias, cada qual com seu próprio etnômio. De acordo com Aníbal Quijano (2005), sociólogo peruano, “a ideia de raça, em seu sentido moderno, não tem história conhecida antes da América. Talvez se tenha originado de forma associada às diferenças fenotípicas entre conquistadores e conquistados, mas o que importa é que desde muito cedo foi construída como referência a supostas estruturas biológicas diferenciais entre esses grupos”[7]. Ou seja, o conceito de “raça”, embora tenha surgido em um certo momento da história, já apareceu como algo que falava sobre uma “verdade intrínseca”, o que no século XIX desembocou nas teorias racialistas eugênicas [8]. Mas isso já história para outro post. 

NOTAS:

[1] Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=6fv7CqCjiJw>. O vídeo todo é em inglês e só há legenda automática para o português. Apesar de a qualidade da legenda não ser muito boa, ainda assim recomendo a visualização, pois dá para entender bastante coisa mesmo para aqueles que não falam inglês.

[2] Id.

[3] A questão dos judeus serem ou não brancos perpassa o vídeo em mais de um momento. Em diferentes lugares e época históricas, judeus foram considerados de formas diferentes. Não cabe neste texto entrar profundamente nesta questão, mas é importante ter em mente isso e lembrar também das diferenças internas ao prórpio grupo de judeus, como a entre asquenazes e sefarditas.

[4] “Biracial” é o termo usado no Estados Unidos para definir pessoas descendentes de uma pessoa branca e outra negra. Não equivale exatamente aos termos brasileiros “mestiço” ou “pardo”, pois no pensamento norte-americano, em geral, não se concebe a ideia de “mistura” racial. Tal termo denota mais uma noção de dualidade interna entre elementos distintos, que permanecem separados, do que uma noção de mistura entre eles.

[5] Em inglês, diferente do português, o termo “pessoa de cor” não carrega uma conotação pejorativa e é considerado correto para falar de pessoas não-brancas. Não é sinônimo de “black” (“negro”), pois engloba outras categorias. 

[6] Fala do Chan disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=LnCzV_H9njc>. Tradução minha.

[7] QUIJANO, Aníbal. “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”. In: LANDER, Edgardo (organizador). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina. Setembro 2005.

[8] Para saber mais, escute nosso terceiro episódio, “Um caldo à brasileira”, aqui no site ou no seu agregador de preferência.

Escrito e editado por Tainá Scartezini.
Imagem: A redenção de Cam, de Modesto Brocos (1895).


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