Mário, diga à gente: como saímos de onde estamos?

Mário na rede. Saudades da fazenda, 1930, por Lasar Segall

Por Beatriz Braga

Na terça-feira de carnaval deste ano, dia 25 de fevereiro, celebrou-se os 75 anos da morte de Mário de Andrade. O escritor teve importante atuação para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à educação e à cultura, bem como para a transformação das artes brasileiras. Estas mesmas artes, culturas e educação estão hoje ameaçadas de extermínio pelo atual governo [1], que à imagem da administração federal de Getúlio Vargas, responsável por desmantelar o projeto desenvolvido por Mário de Andrade como diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo [2], tampouco compreende a importância política da cultura no desenvolvimento da sociedade nacional.

Sua atuação, sempre polêmica, buscava realçar os conflitos, os paradoxos, as tensões. Via e sentia-os em sua realidade, influindo em sua compreensão de si enquanto artista e intelectual público. Como se a fronteira epidérmica entre Mário e o mundo permanecesse em constante osmose.

O caráter contraditório de Mário de Andrade, ao invés de seu calcanhar de Aquiles, foi, em realidade, fundamental para que o polígrafo se tornasse uma personalidade de grande ressonância no país, até os dias de hoje. Isso porque não buscava realizar homogeneizações ou sínteses pacificadas, em prol de uma unificação da população e da cultura. Sua atuação, sempre polêmica, buscava realçar os conflitos, os paradoxos, as tensões. Via e sentia-os em sua realidade, influindo em sua compreensão de si enquanto artista e intelectual público. Como se a fronteira epidérmica entre Mário e o mundo permanecesse em constante osmose.

Por muitas vezes, o escritor foi confundido – conscientemente ou não – com um de seus personagens, Macunaíma, o herói sem-caráter-de-nossa-gente. 

Tais lógicas indígenas, que ressoam na obra, se produzem a partir da lógica do mito, que sai do tempo para compreender o mundo e seus acontecimentos em outro regime de pensamento.  São estas mesmas lógicas que engendram a cosmohistória. 

Macunaíma é uma transcriação literária de mitos indígenas, do povo taulipang, registrados pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg. Não se pode ignorar, nem se pretende, a hibridez da composição do livro, que se valeu de variadas e distintas fontes para sua construção. Os mitos indígenas que inspiraram a história, porém, possuem centralidade, não apenas temática, mas na própria composição espacial e temporal da narrativa. Mas em que sentido, exatamente? 

A história é uma rapsódia, em que coexistem múltiplos espaços e tempos. Estes não são compreendidos de forma linear, mas se absorvem em distintas realidades, construindo, assim, os caminhos de Macunaíma. Tais lógicas indígenas, que ressoam na obra, se produzem a partir da lógica do mito, que sai do tempo para compreender o mundo e seus acontecimentos em outro regime de pensamento.  São estas mesmas lógicas que engendram a cosmohistória [3]. 

Proposta teórico e prática, a cosmohistória apresenta outra forma de pensar o fazer histórico, não apenas pelos seus teóricos, mas pelas próprias pessoas – agentes históricos -, se não completa e conscientemente retiradas da narrativa hegemônica, angulada pela perspectiva conquistadora, muitas vezes por ela fustigadas. Contrariamente à História ocidental, positivista, a cosmohistória não busca definir verdades irrefutáveis e monolíticas. Ao contrário, pretende fazer emergir, através dos conflitos que produziram as relações abordadas, a irredutível distância entre as partes em conflito, uma vez que, partindo de corpos ontológicos distintos, jamais poderiam estar completamente em acordo, até mesmo em referência às próprias condições comunicativas da relação. Isto porque esta proposta parte da valorização das lógicas indígenas para ensejar a revolução no fazer histórico [4]. 

A proposta cosmohistórica sugere, porém, que se subverta a distância entre passado e presente, que aquele seja compreendido pelas investigações históricas não como algo fixo e hermético, mas como sendo constantemente produzido, negociado, transformado, disputado pelo presente.

Como testemunha-se em Macunaíma, estas lógicas compreendem o tempo (e suas divisões entre passado, presente, futuro) de maneira não linear e tampouco universal. A temporalidade eleita pela História científica, dentre as temporalidades ocidentais (que se não muitas, tampouco única), age como se fosse uma escala temporal comum a todos os povos humanos. A proposta cosmohistórica sugere, porém, que se subverta a distância entre passado e presente, que aquele seja compreendido pelas investigações históricas não como algo fixo e hermético, mas como constantemente produzido, negociado, transformado, disputado pelo presente.

Nosso presente. Como saímos de onde estamos? Será que poderíamos buscar em Mário-Macunaíma um caminho para lidar com as situações, cada vez mais agravadas, que perpassam a realidade política, econômica e social do país? 

Em reflexo à própria psicologia do autor, Macunaíma é contraditório. Alimenta-se, cresce com a contradição. Não se mistura harmoniosamente. Não há harmonia, não há pacificação. A indefinição, trickster da contradição, é o que há. É o que permite entrever o retrato – surrealista – de um país sangrando pelas feridas de uma história cíclica. Que morre, volta, e nos faz imagem e semelhança da realidade passada-no-presente. Presente, porém, em disputa. 

E, então Mário. Diz à gente: como saímos de onde estamos?

NOTAS:

[1] À exemplo disto, lembra-se a extinção do Ministério da Cultura, integrado, enquanto Secretaria, ao Ministério da Cidadania, em janeiro de 2019, pelo governo de Jair Bolsonaro. Mais recentemente, lembra-se também a ameaça de extinção da ANCINE (Agência Nacional do Cinema) pelo mesmo governo.

[2] Mário esteve à frente da direção do Departamento de Cultura do Município de São Paulo de 1935 a 1938, por indicação de Paulo Duarte, chefe de gabinete do então prefeito Fábio Duarte. Para saber mais, veja “Me esqueci completamente de mim, sou um departamento de cultura”, por Carlos Augusto Calil e Flávio Rodrigo Penteado.

[3] Para quem quiser saber mais sobre cosmohistória, indico “Hacía una cosmohistoria: las historias indígenas más allá de la monohistoria occidental”, de Federico Linares Navarrete, em La historiografía en tiempos globales, de Guillermo Zermeño e Ingrid Kummels.

[4] Para saber mais sobre essa discussão ver “Natureza incomum: histórias do antropo-cego”, de Marisol de la Cadena. Acesso em https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/145635/139582.

Escrito por Beatriz Braga. Revisão por Tainá Scartezini.

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