Por Tainá Scartezini

Era pra ser só um congresso, mas foi na Bahia. No final do ano passado, estive em Salvador pela primeira vez. Fui para a VI Reunião Equatorial de Antropologia (REA), mas não esperava ter saído de lá tão mexida. Dizem que a Bahia tem dessas coisas…

Lá conheci Taísa Nunes, uma jovem indígena Kariri, povo do sertão da Paraíba, e mestranda em antropologia pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Como a viagem era a trabalho, enquanto presenciava os eventos, procurava possíveis entrevistados para uma nova temporada do podcast. Foi assim que me aproximei dela.

Embora nossa conversa não tenha durado mais do que vinte minutos, o tempo entre a mesa que ambas assistíamos e sua apresentação num grupo de trabalho, naqueles minutos couberam o abalo de um mundo inteiro. Abalo que continua a reverberar e que me fez escrever hoje.

Enquanto falava, Taísa me olhava firme nos olhos, como nunca me olharam antes. Ainda que tenha tentado corresponder a seu olhar, ao menos sustentá-lo, tenho dúvidas se, de fato, o consegui. Tenho dúvidas porque ele era […] uma interpelação não só a ser afetado pela interlocução de pesquisa, mas também a ser digno, como ela mesma me disse, de receber o conhecimento e escutar as histórias que os “nativos” contam aos antropólogos. E não sei se sou digna, mas duvidar é um começo.

Enquanto falava, Taísa me olhava firme nos olhos, como nunca me olharam antes. Ainda que tenha tentado corresponder a seu olhar, ao menos sustentá-lo, tenho dúvidas se, de fato, o consegui. Tenho dúvidas porque ele era muito mais do que um olhar, era um chamado, uma interpelação não só a ser afetado pela interlocução de pesquisa, mas também a ser digno, como ela mesma me disse, de receber o conhecimento e escutar as histórias que os “nativos” contam aos antropólogos. E não sei se sou digna, mas duvidar é um começo. Como provoca Bruce Albert no postscriptum de A queda do céu, texto no qual formula um novo “pacto etnográfico”, é imprescindível estar sempre a duvidar e questionar as consequências éticas e políticas da pesquisa antropológica e do contexto de sua produção. E eram justamente questões éticas e políticas que Taísa ressaltava. Ela me disse que na Paraíba, seu estado, os povos indígenas foram considerados desaparecidos, extintos, apesar de eles ainda lá (r)existirem – algo recorrente em muitos discursos e narrativas sobre povos indígenas no Nordeste, e não só. Ela me relatava o violento processo de colonização da região, marcado pela negação de elementos da identidade indígena, tais como a repressão ao uso da língua nativa e a desapropriação do território.

Ambas emocionadas, conforme ela falava, comecei a chorar. Mais tarde, ainda desestabilizada pelo impacto de suas palavras e de seu olhar, pensei nessas outras dimensões, não só da pesquisa antropológica, mas também (e talvez mais importante) da vida

Ambas emocionadas, conforme ela falava, comecei a chorar. Mais tarde, ainda desestabilizada pelo impacto de suas palavras e de seu olhar, pensei nessas outras dimensões, não só da pesquisa antropológica, mas também (e talvez mais importante) da vida, como o compartilhar de um sorriso, de uma conversa íntima, ou de um punhado de lágrimas.

Não me interessa saber se nos emocionamos pelos mesmos motivos, apenas quero apontar para algo já tão apontado pelos antropólogos e que capturou minha atenção naquele momento: o fato de que há uma dimensão sensível na qual podemos nos conectar, e de perceber que há uma tremenda potência nessa dimensão. Mesmo quando o outro é desconhecido e estamos em situações de suposta frieza objetiva, é possível estabelecer algum tipo de vínculo profundamente pessoal.

Chorei. Mas poderia ter sido outro o disparador dessa conexão. Por isso, quero encerrar o post dessa semana deixando um trecho de um dos textos de antropologia mais bonitos que já li. Quem escreveu foi Márcio Goldman, professor do Museu Nacional, e discute o que eu gostaria de discutir com muito mais propriedade. Nesse trecho, retomando a proposta feita em Ser afetado (outro texto que recomendo a leitura) por Jeanne Favret-Saada, antropóloga francesa nascida na Tunísia, Márcio indaga se os tambores que escutou durante um despacho haviam sido tocados por mortos ou por vivos. Escreve ele que:

“De toda forma, menos do que uma explicação, fiquei imaginando durante muito tempo o que fazer com essa história, como conferir a ela um grau de dignidade que ultrapassasse as recorrentes anedotas acerca de experiências místicas vividas por antropólogos no campo. Nesse caso, conferir dignidade à história dos tambores dos mortos exigia, em primeiro lugar, afastar de antemão as duas explicações mais fáceis, as quais, ambas realistas a seu modo, logo interromperiam a reflexão: a mística, que afirmaria que os tambores eram mesmo de mortos; e a materialista, que diria que se eu ouvi algo foram tambores de vivos. Na verdade, o fato de os tambores que ouvi serem ou não dos mortos (ou de alguma banda afro, do vento, ou outra coisa qualquer), ou mesmo o fato de acreditar ou não que o eram, não tem a menor importância. O que importa é que, querendo ou não, levei a história a sério, fui por ela afetado no sentido que Jeanne Favret-Saada (1990, p. 7) confere à expressão. Ou seja, o evento me atingiu em cheio – certamente de maneira distinta daquela pela qual atingiu meus amigos (e talvez até mesmo como parte das tradicionais histórias de antropólogos tendo experiências místicas) mas, não obstante, de um modo que permitiu o estabelecimento de uma certa forma de comunicação involuntária entre nós (p. 9).”

Textos mencionados ou sugeridos:
ALBERT, Bruce. Postscriptum. In: KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã Yanomami. Compania das Letras, São Paulo, 2014. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés.
FAVRET-SAADA, Jeanne. “Ser afetado”. In: Cadernos De Campo (São Paulo 1991), 13(13), 155-161. Tradução de SIQUEIRA, P (2005). Disponível em: http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/50263
GOLDMAN, Márcio. “Os tambores dos mortos e os tambores dos vivos”. In: Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 2003, V. 46 Nº 2, p. 450. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ra/v46n2/a12v46n2.pdf

Escrito por Tainá Scartezini
Revisão de Beatriz Braga e Lucas Lippi
Imagem: “Heartease, or wildy pansy, and waterwort”. In: British flowering plants by W. F. Kirby. 1906. (domínio público).


Teste, teste, teste, teste

Por Beatriz Braga

A ideia de fazer um blog, associado ao site do Selvagerias, veio com o mesmo intuito que originalmente nos levou a esta jornada sonora: comunicar a antropologia.



Talvez possa parecer banal que tenha sido essa a nossa missão desde o início, mas o caminho foi árduo. Ainda assim, apesar de todas as dificuldades materiais de levar a cabo um projeto que conta apenas com pessoas, compomos um grupo que compartilha de um mesmo anseio: comunicar a antropologia. Mas como? 

Um mesmo anseio: comunicar a antropologia. Mas como? 

Saídos de um curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, carregamos um grande apreço pela linguagem, pelos conceitos. Para a produção da teoria antropológica, como nós a conhecemos, é fundamental que exista um cuidado, uma certa atenção e responsabilidade com as palavras usadas, com os sentidos intencionados e com as pessoas e povos referidos. Há uma vasta rede de relações por trás de como nós, antropólogos, nos comunicamos. Vê-se, pois, não se tratar de uma tarefa banal.

No início, sentíamos falta de materiais que não fossem estritamente textuais, que veiculassem aqueles saberes que tanto nos instigavam, dia após dia, em nossos cotidianos acadêmicos. Para quem cursa uma graduação cuja principal exigência é a leitura, a falta de outras mídias e veículos sobre os assuntos estudados é palpável, físico.

Um podcast de antropologia parecia uma boa ideia, não havia ainda nenhum projeto desse tipo publicado no Brasil. O ano era 2018. Depois chegamos a conhecer outras iniciativas, mas naquele momento de gestação, nos sentíamos inovadores, revolucionários mesmo. E iniciou-se o trabalho.

Não se tratava apenas de escolher uma linguagem mais ou menos formal. Nosso desafio parecia beirar o impossível: traduzir para um público leigo conceitos que mobilizavam discussões na comunidade antropológica havia décadas, se não séculos. Prezávamos pela ludicidade, pelo prazer do ouvinte ao nos escutar. Mas receávamos a exotização, o encapsulamento de uma comunicação que apenas se faz compreensível para quem fala.

Muito planejamento, muita pesquisa, e teste teste teste teste teste. O piloto, coitado, nos levou cinco meses. Esse parto foi difícil. Mas qual era a dificuldade? Justamente a nossa missão: comunicar a antropologia. Não se tratava apenas de escolher uma linguagem mais ou menos formal. Nosso desafio parecia beirar o impossível: traduzir para um público leigo conceitos que mobilizavam discussões na comunidade antropológica havia décadas, se não séculos. Prezávamos pela ludicidade, pelo prazer do ouvinte ao nos escutar. Mas receávamos a exotização, o encapsulamento de uma comunicação que apenas se faz compreensível para quem fala.

Como, então, comunicar um saber que se transforma constantemente há duzentos anos? Como comunicar um saber que não é um, mas muitos? Saberes. Relações. Conflitos. Como transformar isso num programa aprazível?

Sinceramente, não sei se temos uma resposta única, ou sequer clara. O ano de 2019 foi de muito trabalho, muita cara na parede e uma grande lição: comunicar a antropologia é um exercício que vai além de nossa missão de produzir um podcast. É um exercício que impacta nossas próprias carreiras, pesquisas e relações. Um exercício necessário para que conhecimentos múltiplos não faleçam inaudíveis sob os escombros de uma era de intolerância, impaciência e falta de empatia.

Este blog, que inicia-se hoje, e retorna semanalmente, faz parte deste exercício. Teste teste teste teste teste. Este é o novo blog do Selvagerias.

Escrito por Beatriz Braga.
Edição e revisão de Tainá Scartezini.
Imagem de Selvagerias.