Teste, teste, teste, teste

Por Beatriz Braga

A ideia de fazer um blog, associado ao site do Selvagerias, veio com o mesmo intuito que originalmente nos levou a esta jornada sonora: comunicar a antropologia.



Talvez possa parecer banal que tenha sido essa a nossa missão desde o início, mas o caminho foi árduo. Ainda assim, apesar de todas as dificuldades materiais de levar a cabo um projeto que conta apenas com pessoas, compomos um grupo que compartilha de um mesmo anseio: comunicar a antropologia. Mas como? 

Um mesmo anseio: comunicar a antropologia. Mas como? 

Saídos de um curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, carregamos um grande apreço pela linguagem, pelos conceitos. Para a produção da teoria antropológica, como nós a conhecemos, é fundamental que exista um cuidado, uma certa atenção e responsabilidade com as palavras usadas, com os sentidos intencionados e com as pessoas e povos referidos. Há uma vasta rede de relações por trás de como nós, antropólogos, nos comunicamos. Vê-se, pois, não se tratar de uma tarefa banal.

No início, sentíamos falta de materiais que não fossem estritamente textuais, que veiculassem aqueles saberes que tanto nos instigavam, dia após dia, em nossos cotidianos acadêmicos. Para quem cursa uma graduação cuja principal exigência é a leitura, a falta de outras mídias e veículos sobre os assuntos estudados é palpável, físico.

Um podcast de antropologia parecia uma boa ideia, não havia ainda nenhum projeto desse tipo publicado no Brasil. O ano era 2018. Depois chegamos a conhecer outras iniciativas, mas naquele momento de gestação, nos sentíamos inovadores, revolucionários mesmo. E iniciou-se o trabalho.

Não se tratava apenas de escolher uma linguagem mais ou menos formal. Nosso desafio parecia beirar o impossível: traduzir para um público leigo conceitos que mobilizavam discussões na comunidade antropológica havia décadas, se não séculos. Prezávamos pela ludicidade, pelo prazer do ouvinte ao nos escutar. Mas receávamos a exotização, o encapsulamento de uma comunicação que apenas se faz compreensível para quem fala.

Muito planejamento, muita pesquisa, e teste teste teste teste teste. O piloto, coitado, nos levou cinco meses. Esse parto foi difícil. Mas qual era a dificuldade? Justamente a nossa missão: comunicar a antropologia. Não se tratava apenas de escolher uma linguagem mais ou menos formal. Nosso desafio parecia beirar o impossível: traduzir para um público leigo conceitos que mobilizavam discussões na comunidade antropológica havia décadas, se não séculos. Prezávamos pela ludicidade, pelo prazer do ouvinte ao nos escutar. Mas receávamos a exotização, o encapsulamento de uma comunicação que apenas se faz compreensível para quem fala.

Como, então, comunicar um saber que se transforma constantemente há duzentos anos? Como comunicar um saber que não é um, mas muitos? Saberes. Relações. Conflitos. Como transformar isso num programa aprazível?

Sinceramente, não sei se temos uma resposta única, ou sequer clara. O ano de 2019 foi de muito trabalho, muita cara na parede e uma grande lição: comunicar a antropologia é um exercício que vai além de nossa missão de produzir um podcast. É um exercício que impacta nossas próprias carreiras, pesquisas e relações. Um exercício necessário para que conhecimentos múltiplos não faleçam inaudíveis sob os escombros de uma era de intolerância, impaciência e falta de empatia.

Este blog, que inicia-se hoje, e retorna semanalmente, faz parte deste exercício. Teste teste teste teste teste. Este é o novo blog do Selvagerias.

Escrito por Beatriz Braga.
Edição e revisão de Tainá Scartezini.
Imagem de Selvagerias.