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Por Lucas Lippi

O coronavírus tomou as manchetes nas últimas semanas. A epidemia que teve início na China, na cidade de Wuhan, já infectou mais de 70 mil pessoas, causando cerca de 1700 mortes, quase todas no mesmo país. A Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão subordinado à Organização das Nações Unidas (ONU), classificou-a como “ameaça muito grave para o mundo”. O crescente alarmismo em torno do vírus tem sido construído por informações bastante díspares. Por um lado as fake news [1], que distorcem o ainda insuficiente conhecimento sobre o patógeno e reforçam a xenofobia, ligando a China a um primitivismo que incentiva o asco; por outro, notícias que evidenciam o admirável e impressionante esforço chinês de combater o alastramento da doença, aclamando o avanço técnico e científico – o progresso que nos defende da “natureza” mortal [2].

O crescente alarmismo em torno do vírus tem sido construído por informações bastante díspares.

Outras doenças também convocaram reações públicas, identificando “culpados” pela disseminação. O vírus Influenza H1N1, responsável pela morte de milhões de pessoas por volta de 1918, retornou em 2009 com o surto que ficou conhecido como gripe suína. A gripe aviária de 2005, que teria começado no leste asiático, também tornou um grupo de animais o centro das atenções. O Brasil, grande produtor agropecuário, teve o mercado interno bastante afetado pela diminuição de vendas dessas carnes. Distante da lógica da produção, outro culpado popularmente conhecido é o Aedes aegypti, mosquito transmissor da chikungunya dengue e zika. Por mais que as campanhas alertem para os cuidados relacionados à água parada em recipientes, os mosquitos são colocados como vilões da negligência estatal, seja pela falta de pesquisas na área, seja pela fiscalização adequada de criadouros do mosquito.

A conexão que estabeleço entre essas infecções não é de qualquer ordem de semelhança, mas chamo atenção para o modo como nos relacionamos e damos nomes às doenças, e quais os efeitos disso. Para além dos efeitos clínicos causados por esses seres biológicos, eles têm papéis – ou agências, como dizemos na antropologia – em outras esferas de sociabilidade, e merecem preocupação equivalente.

Num cenário em que “smart” (“inteligente”) torna-se adjetivo para qualquer objeto, seres ditos “não inteligentes” ganham características supostamente humanas. No dia 11 de fevereiro, o jornal britânico The Guardian publicou uma entrevista com Gabriel Leung, professor de saúde pública da Universidade de Hong Kong [3]. A matéria tematiza o alcance e a letalidade da doença. Em uma de suas falas, o professor Leung diz ser possível o vírus atenuar sua letalidade, já que matar todos em seu caminho não o ajuda, pois acabaria se matando também. Nessa fala, o agente infeccioso é posto como um ser dotado de controle sobre os efeitos que causa, como se houvesse algum tipo de inteligência por trás de suas ações. Percebemos, portanto, que se recorre à capacidade cognitiva, que serviu durante muitos anos para diferenciar a humanidade de outras espécies, para explicar a atividade viral. Seja um uso metafórico ou não, essa associação nos lança outra luz sobre como compreender essa forma de vida.

Num cenário em que “smart” (“inteligente”) torna-se adjetivo para qualquer objeto, seres ditos “não inteligentes” ganham características supostamente humanas.

Na minha leitura, isso sugere que para o ocidente a natureza, quando dotada de inteligência, tem um caráter ainda mais ameaçador do que teria caso se mantivesse em seu lugar de objeto controlado e domesticado pela humanidade. É como se a adaptação, característica comum às diferentes formas de vida, agisse contra a permanência dos humanos na Terra, de modo que as únicas reações possíveis são a completa aniquilação desses agentes ou seu aprisionamento em laboratórios como amostra para uso futuro. Entretanto, o conhecimento segregacionista das ciências ocidentais pressupõe que os contextos sociais, embora facilitem as transmissões, são menos relevantes do que o controle dos patógenos em si, de modo que a manutenção da desigualdade social apenas condena à morte pessoas em situação de vulnerabilidade social. A culpa direcionada aos vírus, às bactérias e a outros parasitas desvia a atenção para problemas que são de ordem social, política e econômica.

NOTAS:

[1] https://www.saude.gov.br/fakenews?start=30

[2] Rosana Pinheiro-Machado escreveu um artigo sobre a falta de conhecimento acerca da China que nos prende no dualismo contraditório do moderno em oposição ao exótico: https://theintercept.com/2020/01/28/coronavirus-desinformacao-china/

[3] https://www.theguardian.com/world/2020/feb/11/coronavirus-expert-warns-infection-could-reach-60-of-worlds-population

Escrito por Lucas Lippi.
Edição e revisão de Beatriz Braga, Diógenes Cariaga e Tainá Scartezini..
Imagem: Content Providers(s): CDC/Dr. Fred Murphy.